Superar medos
e acreditar
Há algo de poderoso em superar um medo e perceber que afinal era algo simples e que não tínhamos razões para temer. Faz-nos sentir empoderadas e com forças renovadas para enfrentar a vida. É o equivalente a quando o super Mario apanha um cogumelo que o deixa imortal e a brilhar.
Há anos que queria fazer uma tatuagem. Quase 15. Sabia exatamente o que queria fazer e onde. Estava tudo definido. Só faltava vencer o medo. Ou acreditar mais em mim.
Sempre tive medo de agulhas. Levar vacinas é um suplício e fazer análises leva-me sempre ao extremo da ansiedade. Não preciso sequer de ver ou sentir a agulha. Saber o que vai acontecer é o suficiente para me deixar em pânico.
Por ironia do destino (e sorte a minha), quando fui para a faculdade, a vida deu-me uma colega de quarto estudante de enfermagem. Parece uma anedota: uma pessoa que não consegue ouvir falar de quase nada relacionado com doenças, médicos e agulhas e uma pessoa que adora todos os temas relacionados com medicina e adora partilhar experiências de estágios em hospitais entram num quarto. O resto é história.
Lá para o meio da história, ela até tentou fazer terapia de choque e ajudar-me a superar este medo, mas não resultou. Nada resulta e eu sempre pensei que nunca ia conseguir fazer uma única tatuagem por causa deste meu medo.
Era só mais um dos meus sonhos em suspenso. Até que, à medida que vou ficando mais velha, vou tendo menos paciência para esperar pelos sonhos por concretizar. Quero fazer um check em tudo e quero-o agora. Infelizmente há muitos que não são fáceis de cumprir de um dia para o outro.
Este era possível! E depois de adiar por anos, muita pesquisa e muita incerteza, lá marquei a minha sessão para fazer duas tatuagens. Sim, duas! Afinal, a loucura e o ver “desconto se forem duas ou mais” são mais fortes do que o medo. Além disso, entre a minha primeira ideia de tatuagem e este ano já me surgiram muitas mais ideias. Não valia a pena adiar mais. Se era para ser que fosse em grande.
Foi em maio. No dia 13, o meu número favorito. Tirei o dia e rumei a Lisboa para tatuar com a Beles. Um “eu acredito” carregado de significado, lágrimas de todos os tipos, saudade, coragem e amor. E um cravo a enraizar Abril e a Liberdade que trago sempre no coração e hei de defender toda a vida.
Se estava com medo? Muito. Aqueles dias antes foram um stress e tinha muito medo de que fosse difícil suportar a dor. Mas tinha mais vontade de cumprir um sonho. Saí de casa acompanhada por uma dose de coragem acrescida e pela minha playlist de suporte emocional. Não me consigo lembrar do que pensei ou senti quando cheguei ao estúdio, só sei que a Beles pôs-me tão à vontade que de repente sentia que estava com uma amiga e o medo foi-se dissipando rapidamente. Não doeu nada e por entre conversa descontraída, mal dei pelo tempo passar.
Quando dei por mim, tinha as minhas duas primeiras tatuagens. Quando dei por mim, tinha vencido um medo e realizado um sonho. Saí daquele estúdio uma tonelada mais leve e incontáveis vezes mais motivada. Eu tinha conseguido e não tinha sido o bicho de cabeças que imaginei.
Eu consegui e, ultrapassado o medo, fiquei um passo mais perto de quem eu realmente sou. São dois pequenos desenhos, cinco centímetros cada, mas fizeram uma diferença enorme na minha vida. Sinto-me mais bonita, mais eu, mais empoderada, mais capaz de enfrentar o que está por vir.
Ainda falta fazer alguns checks na lista dos sonhos, mas agora tenho a prova de que sou capaz marcada na pele. E sempre que me questionar sobre as minhas capacidades, tenho um eu acredito para me lembrar de que isso ninguém me pode tirar.



